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DIA DA CRIAÇÃO - Vinícius de Moraes (Porque hoje é sábado.)

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Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperan…

“MULHER BRASILEIRA EM PRIMEIRO LUGAR”

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Hoje, o dia se apresentou de modo diferente. Em torno a nós, espalhou-se uma atmosfera repleta de uma pureza inebriante, de uma angélica doçura entorpecente, da mais cândida e imaculada das ternuras.
      Hoje o planeta se curva para homenagear aquelas que deixaram de ser apenas “uma costela de um homem”, para se conceberem na mais forte e suprema graça.
      O dia é internacional, mas a mulher brasileira merece um capítulo a parte.      Hoje até os rouxinóis mudaram seu repertório, para poderem homenageá-las com seu mais perfeito concerto de louvores. 
     Mulher, palavra que outrora fora sinônimo de submissão, agora se tornou de força, de determinação. Mulher brasileira, guerreira, charme e perseverança. Mulher de fibra, de batalhas incessantes.
    Mulher brasileira, cantada nos versos de Vinícius, declamada nos olhos dos amantes, seja ela quem for, seja “Garota de Ipanema”, seja “Amélia”, mulher brasileira é “que é mulher de verdade”.
    Mulher que diariamente labuta por seu espaço,…

POEMA - "NÔMADE"

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Eu vago pela vida sozinho
Seguindo em minha caravana solitária
Atravesso ruas, becos, praças e até o deserto
Sem conhecer-me ao certo.

Caminho pelo negrume vale do ocaso
Um nevoeiro denso cobre a estrada
Perdido entre os álamos tenho estado
Sem descobrir o meu fado.

Avisto ao longe o poente
Mas ainda é vasto o caminho
Procuro o amor que venero
E que há muito tempo espero.

Percorro o mundo inteiro
Vou do Tártaro até o Olimpo
Pareço um poeta errante
Buscando um sonho distante.

Não sei quando vai se findar
Essa jornada incessante
Sigo andando sem saber se um dia
Encontrarei um oásis de alegria
Onde possa enfim descansar.

CLAY REGAZZONI
(direitos reservados ao autor)

CONSELHOS DE UM VELHO APAIXONADO

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UMA CRÔNICA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR.

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofr…

NA FLORESTA DO ALHEAMENTO

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Fernando Pessoa
Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...

Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.

Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.

Com uma lentidão co…

A falta que ama - Carlos Drummond de Andrade.

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Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,

forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora

corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira

que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa

o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado

na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?

Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

Carlos Drummond de Andrade, A Falta que Ama

“CARTAS DE MEU AVÔ”

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Manuel Bandeira

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu, — fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abis…