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POEMA - "NÔMADE"

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Eu vago pela vida sozinho
Seguindo em minha caravana solitária
Atravesso ruas, becos, praças e até o deserto
Sem conhecer-me ao certo.

Caminho pelo negrume vale do ocaso
Um nevoeiro denso cobre a estrada
Perdido entre os álamos tenho estado
Sem descobrir o meu fado.

Avisto ao longe o poente
Mas ainda é vasto o caminho
Procuro o amor que venero
E que há muito tempo espero.

Percorro o mundo inteiro
Vou do Tártaro até o Olimpo
Pareço um poeta errante
Buscando um sonho distante.

Não sei quando vai se findar
Essa jornada incessante
Sigo andando sem saber se um dia
Encontrarei um oásis de alegria
Onde possa enfim descansar.

CLAY REGAZZONI
(direitos reservados ao autor)

CONSELHOS DE UM VELHO APAIXONADO

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UMA CRÔNICA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR.

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofr…

NA FLORESTA DO ALHEAMENTO

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Fernando Pessoa
Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...

Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.

Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.

Com uma lentidão co…

A falta que ama - Carlos Drummond de Andrade.

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Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,

forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora

corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira

que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa

o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado

na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?

Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

Carlos Drummond de Andrade, A Falta que Ama

“CARTAS DE MEU AVÔ”

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Manuel Bandeira

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu, — fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abis…

Elevação – Charles Baudelaire

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Acima dos valões, acima dos quintais,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares,
Muito depois do sol, dos campos estelares,
Muito além dos confins das esferas astrais,

Espírito meu, voas com agilidade;
Como o bom nadador que na onda se excita,
Mergulhas com prazer na amplidão infinita,
Na indizível volúpia da virilidade.

Decola para longe deste chão doente,
Vai te purificar no ar superior
E sorver o límpido, divino licor
Da clara luz que inunda o espaço transparente.

Em meio a infortúnio, mágoa e veneno,
Que tornam mais pesada esta vida brumosa,
Feliz de quem puder com asa vigorosa
Alçar vôo no céu luminoso e sereno;

Quem tiver pensamentos como a passarada
Que no ar da manhã revoa em liberdade
— Quem planar sobre a vida, entender a verdade,
Na linguagem da flor e das coisas caladas!

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

"DEDICATÓRIA"

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Meu coração dedico a ti.
Dedico também os sonhos meus
Toda a minha mente
Minhas esperanças todas
E todo o amor que em mim existe.

Meu ser dedico a ti.
Minhas raras virtudes
Meus desejos e alegrias
E mesmo esse poema
Tudo dedico a ti.

Minha alma dedico a ti.
A ti entrego meu coração
Em tuas mãos ponho meus sentimentos
Que inflama meu pensamento
Na divina imensidão do teu sorriso.

E mesmo que seja pouco.
Minha vida também dedico a ti
E no meu íntimo eu desejo
Que você receba essa dedicatória
Como a única forma que vejo
De entregar-lhe o que levo no peito.

CLAY REGAZZONI
(direitos reservados ao autor)