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“CARTAS DE MEU AVÔ”

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Manuel Bandeira

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu, — fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abis…

Elevação – Charles Baudelaire

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Acima dos valões, acima dos quintais,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares,
Muito depois do sol, dos campos estelares,
Muito além dos confins das esferas astrais,

Espírito meu, voas com agilidade;
Como o bom nadador que na onda se excita,
Mergulhas com prazer na amplidão infinita,
Na indizível volúpia da virilidade.

Decola para longe deste chão doente,
Vai te purificar no ar superior
E sorver o límpido, divino licor
Da clara luz que inunda o espaço transparente.

Em meio a infortúnio, mágoa e veneno,
Que tornam mais pesada esta vida brumosa,
Feliz de quem puder com asa vigorosa
Alçar vôo no céu luminoso e sereno;

Quem tiver pensamentos como a passarada
Que no ar da manhã revoa em liberdade
— Quem planar sobre a vida, entender a verdade,
Na linguagem da flor e das coisas caladas!

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

"DEDICATÓRIA"

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Meu coração dedico a ti.
Dedico também os sonhos meus
Toda a minha mente
Minhas esperanças todas
E todo o amor que em mim existe.

Meu ser dedico a ti.
Minhas raras virtudes
Meus desejos e alegrias
E mesmo esse poema
Tudo dedico a ti.

Minha alma dedico a ti.
A ti entrego meu coração
Em tuas mãos ponho meus sentimentos
Que inflama meu pensamento
Na divina imensidão do teu sorriso.

E mesmo que seja pouco.
Minha vida também dedico a ti
E no meu íntimo eu desejo
Que você receba essa dedicatória
Como a única forma que vejo
De entregar-lhe o que levo no peito.

CLAY REGAZZONI
(direitos reservados ao autor)

Ode a uma estrela - Pablo Neruda

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Ao subir à noite no terraço de um arranha-céu altíssimo e aflitivo pude tocar a abóboda noturna e em um ato de amor extraordinário apoderei-me de uma estrela celeste. Era uma noite negra e eu deslizava pelas ruas com a estrela roubada em meu bolso.

De trêmulo cristal parecia e era num átimo como se levasse um pacote de gelo ou uma espada de arcanjo na cintura. Guardei-a, temeroso, debaixo da cama para que ninguém a descobrisse, sua luz porém atravessou primeiro a lã do colchão, depois as telhas, e o telhado da minha casa.

Incômodos tornaram-se para mim os afazeres mais comuns. Sempre com essa luz de astral acetileno que palpitava como se quisesse retornar para a noite, eu não podia dar conta de todos os meus deveres cheguei a esquecer de pagar as minhas contas e fiquei sem pão nem mantimentos. 

Enquanto isso, na rua, se amotinavam transeuntes, boêmios vendedores atraídos sem dúvida pelo insólito clarão que viam sair de minha janela. Então recolhi outra vez minha estrela, com cuidado a en…

A VALSA : Casimiro de Abreu

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Tu, ontem, Na dança Que cansa, Voavas Co'as faces Em rosas Formosas De vivo, Lascivo Carmim; Na valsa Tão falsa, Corrias, Fugias, Ardente, Contente, Tranqüila, Serena, Sem pena De mim!
Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!...
Valsavas: — Teus belos Cabelos, Já soltos, Revoltos,  Saltavam, Voavam, Brincavam No colo Que é meu; E os olhos Escuros Tão puros, Os olhos Perjuros Volvias, Tremias, Sorrias, P'ra outro Não eu!
Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!...
Meu Deus! Eras bela Donzela, Valsando, Sorrindo, Fugindo, Qual silfo Risonho Que em sonho Nos vem! Mas esse Sorriso Tão liso Que tinhas Nos lábios De rosa, Formosa, Tu davas, Mandavas A quem ?!
Quem dera Que sintas As dores De arnores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas,.. — Eu vi!...
Calado, Sózinho, Mesquinho, Em zelos Ardendo, Eu …

"AS SOMBRAS DO AMANHÃ"

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Peregrinando por um beco gélido de sombras enfadonhas, desconsolo-me à pálida ignescência de meu descarnado coração.  Inebriado pelo ópio dos desejos corrompidos pelo adejar da quimera perdida, e pelo fogo de constelações extintas há milênios, onde se esquece à pureza das flores.   Cartas suicidas não desvirtuam meus olhos conscientes. A inexaurível soturnidade em que se hiberna o ermo âmago de minha encarnada alma deturpa-me o espírito.    As sombras dolosas do amanhã incerto ecoam glacialmente por minhas exangues veias, degradando as ilusões que outrora se degredaram na aurora de meus devaneios.    De mim já não faço mais parte. Não consigo voar com minhas asas quebradas e meu coração ferido. Dou uma volta fora de minha consciência, vejo em meus úmidos soluços de compaixão o repúdio indefinível de minhas esperanças.     Sublinho o meu olhar irresoluto tentando caminhar através da dor, mas o copo enche até a borda e me afogo num inesgotável sofrimento.     Há um buraco em minha alma. T…

“MULHER BRASILEIRA EM PRIMEIRO LUGAR”

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Hoje, o dia se apresentou de modo diferente. Em torno a nós, espalhou-se uma atmosfera repleta de uma pureza inebriante, de uma angélica doçura entorpecente, da mais cândida e imaculada das ternuras.
      Hoje o planeta se curva para homenagear aquelas que deixaram de ser apenas “uma costela de um homem”, para se conceberem na mais forte e suprema graça.
      O dia é internacional, mas a mulher brasileira merece um capítulo a parte.      Hoje até os rouxinóis mudaram seu repertório, para poderem homenageá-las com seu mais perfeito concerto de louvores. 
     Mulher, palavra que outrora fora sinônimo de submissão, agora se tornou de força, de determinação. Mulher brasileira, guerreira, charme e perseverança. Mulher de fibra, de batalhas incessantes.
    Mulher brasileira, cantada nos versos de Vinícius, declamada nos olhos dos amantes, seja ela quem for, seja “Garota de Ipanema”, seja “Amélia”, mulher brasileira é “que é mulher de verdade”.
    Mulher que diariamente labuta por seu espaço,…